A história deve ser dividida em tres etapas.
Etapa 1 – Cirurgia de Obesidade
Etapa 2 – Divórcio
Etapa 3 – Sepultando um monstro
O fim da vida sempre tem um motivo, uma circunstância. Nem sempre é especial, mas quem se importa. O fato é que, no caso de alguém que tem uma segunda chance de começar, alguma história póstuma tem que ser contada, o ponto de vista do que morreu e pode dizer com detalhes o que ocorreu.
Se perguntar aos meus amigos, eles dirão não sabemos ao certo mas acho que foi isso. Se perguntar a minha família, eles dirão que até agora estão chocados com tudo. Se perguntar a Adriana, esposa da primeira vida, ela dirá que eu mereci. Sendo assim, melhor eu mesmo contar alguma coisa…
Etapa 1 – Cirurgia de Obesidade

Por uma série de problemas eu desembestei a comer totalmente sem controle. Compulsão alimentar é uma doença meio silenciosa. No princípio parece farra, depois vira um “mal hábito” e no final está te consumindo vivo. A comida é uma companhia prazerosa, melhor que as pessoas e melhor que a bebida porque é socialmente melhor aceita. O fato é que, eu me tornei em 6 anos um homem de 150 kilos.
Meus tornozelos já não aguentavam, desenvolvi uma artrite nos dois. Andar era um sofrimento, acordar todo dia era um tormento. Então, comia para aliviar um pouco. Problemas estomacais, intestinais, depressão… acho que eu duraria mais uns anos e pronto. Também já não tinha muita motivação pra viver. Como o problema era de fundo emocional, massacrava meus amigos, filhas e esposa com meus problemas. Enfim, me tornei um monstro.
Um dia uma junta de vizinhos foi na minha porta reclamar de diversas coisas. Entre elas, das constantes brigas que eu tinha com minha EX esposa. A pessoa que eles descreveram não era eu. Não podia ser. Eles descreveram um monstro. Eu não era um monstro.
Eu era um montro.
Aquilo foi um choque. Um monstro por fora. Um monstro por dentro. Cheio de rancor, de mágoa, nervoso, enfim… precisava mudar as coisas.
Comecei pelo que me pareceu o mais lógico, resolvendo a questão da saúde. Procurei ajuda na Gastromed. Lá eles me atenderam de forma bem completa, com psicólogos, cirurgião, equipe multidisciplinar de primeira, além de contato com pessoas já operadas de estômago. Meu endocrinologista também me incentivou. Eu era o pior caso dele, já que não respondia a nenhum tratamento proposto.
Operei 29/05/08. Quase morri. Mas estou aqui.
Os primeiros 6 meses lutei pela minha vida. Muitos amigos ao meu redor, a equipe da Gastromed me ajudando em todos os sentidos, acompanhando de perto e eu consegui me recuperar. Minha cirurgia foi bem mas a saúde do meu estomago não estava tão bem. Abriu um fístula enorme em meu estômago. Fechou. Graças a Deus e ao tratamento recomendado pelo Prof. Dr. Bruno. Não sei mais nem quantos especialistas cuidaram de mim no Hospital Bandeirantes durante os 15 dias que estive ali internado ou quantos telefonemas e cuidados recebi durante o período que me recuperei em casa. O fato é que a equipe da Gastromed me salvou, creio eu, usados pelo poder de Deus.
Em 1 ano já estava com 90kilos. Hoje estou com 83Kilos. Me sinto ótimo!
Trabalhei na C&A Modas ainda durante minha recuperação. No final de 2008, já recuperado, fui demitido. Quase enlouqueci. Quase pus a perder minha cirurgia. Mas o pior ainda estaria por vir.
Etapa 2 – O divócio
Perder o emprego em Dezembro é um desastre pra qualquer chefe de família. Pra alguém que está se recuperando de uma cirurgia de obesidade, atravessando momentos de euforia e depois de profunda depressão é uma tragédia ainda maior.
Com a grana do total da minha rescisão foi possível quitar o apartamento que agora é da Adriana, minha EX. Procurar emprego nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro não é uma coisas muito produtiva. Então, resolvi dar uma descansada em Dezembro e só contar sobre o desemprego em Janeiro, assim evitaria o sofrimento da Adriana.
Mas, como eu sou idiota.
Em Janeiro procurei ela logo no começo do ano e contei o que havia acontecido. Demissão em massa na C&A, nada preocupante, quitaríamos o apartamento e eu tinha ainda dinheiro pra nos manter por uns 4 meses. Padrão de vida de classe média. Não esperava o que ela faria daí pra frente.
Em 14 de Janeiro de 2009 ela me mandou embora de casa. Seria só a primeira vez. Eu ainda sofrendo com a depressão pós cirurgia, normal no primeiro ano de operação bariátrica, não consegui reagir. Não consegui lutar.
Procurei ajuda no único lugar que me restava, na igreja. Em minha igreja não sabia qual seria a reação das pessoas, então procurei a igreja de outro pastor amigo meu, Pr. Cláudio. Iniciei uma campanha de oração chamada “7 domingos orando de joelhos”. Orei com toda as minhas forças. Além disso, frequentei montes, orava nas madrugadas. Só não jejuei pq a compulsão alimentar começou a se manifestar novamente. Acho que em 3 meses consumi uns 40 kilos de chocolate. Comia uma barra de 500 gramas por dia pelo menos.
Orei bastante, mas as coisas só pioravam. Frases como “Você não é homem pra mim…” “Não te vejo como homem nessa casa…” “Porque você simplesmente não vai embora...” Uma tortura. Eu não reagia…
Em 23 de Março, as 18:21, por um estalo eu simplesmente reagi. Uma discussão besta. Mais uma frase como as de cima acompanhado de um “Não tá satisfeito, sai fora...” . Peguei a mala e sai.
Em outro momento teria sido mais forte, teria aguentado a barra, revertido as coisas, sei lá. Mas a pessoa que se apresentou a partir de então, mereceu que eu fosse embora. Descobri coisas sobre minha EX e percebi condutas dela que me mostram que, apesar de tudo, realmente estou melhor agora.
E finalmente o monstro estava morrendo…
Etapa 3 – Sepultando o monstro
Faltava algo pra sepultar o monstro. Algo que eu ainda não sabia o que era.
Conhecer pessoas novas, fazer amigos e voltar a ter vida social. Como isso foi difícil. Como é difícil confiar. Como é difícil se reunir com pessoas e se divertir. Como é difícil ir a uma festa. Como foi difícil vencer tudo isso…
Mas eu consegui. Estou voltando a ser a pessoa incrível que eu era. Não sei onde foi que me perdi, mas estou de volta. Sepultado o monstro está. Tenho medo que ele volte. Este blog/relato é uma tentativa de celebrar esta nova vida.
Obrigado Senhor, pela oportunidade de começar do zero. Poucas pessoas tem esse privilégio.


Muito bom esse seu relato, já passei por coisas parecidas, da fase monstro. Não cheguei frequentar igreja (Embora te conheci em uma, quando eu estava de passagem com minha tia conhecendo a Igreja, só não recordo o nome.. Acho que Shamam). Gostei do Texto mesmo, parabens.